Que estranho! - pensei.
Que diabos um macaco está fazendo numa sala de estar com um bisturi na mão!? Talvez ele fosse louco, ou desesperado. Se estender minhas possibilidades posso até me lambuzar numa situação cômica ou assustadoramente trágica. Mas esse macaco...
Ele se mexeu. Pulou até o beiral da janela e começou a contar estrelas. Virou-se para o espelho na parede esquerda. Fitou-me. Foi o olhar mais fustigante que eu poderia querer. Queria dizer-me algo. Passou um tempo balançando o dito cujo,passando-o de uma mão para a outra. Mas nunca desviou-me os olhos.O homen de terno cinza escuro riu da situação. O macaco não. Como num déja-vu o sociopata avançou e subitamente arrancou-lhe um dos olhos. Aquilo me deixou em catatonia profunda. Virou-se e olhou-me de novo aquele ser especial, enquanto o infeliz humano esvaía-se em sangue e vômitos.Queria mesmo dizer-me algo.Jogou o instrumento para cima querendo evidentemente que meus olhos o seguissem.Foi o que aconteceu. Quando a morte tocou o chão,reparei que algo acontecera.Não me atrevia a olhar,mas senti um alívio imediato de carga emocional.Parecia flutuar.Gostei daquilo,me sentia pleno e constante...até demais.Abri meus olhos á meia-luz e minha leveza não passava. Abri mais ainda e preencheu-me um vazio indescritível. Sentia que eu era nada. O macaco riu dessa vez. Parecia prever isso. Olhou-me novamente e sussurou mensagens em mímica simiesca que aparentemente eu entendia. Mas o que se sucedeu superou em muito minha real e ínfima interpretação do que estava acontecendo. Tudo ficou quieto de repente. Ele continuou a me olhar fixamente nos olhos,mas dessa vez parecia pedir desesperadamente por algo.Eu não entendia. Preferia sua mímica primitiva. Estendeu-me a mão. Eu então toquei-o de leve com a ponta dos dedos. Aquilo me gelou a espinha. Parecia que estava deixando definitivamente algo para trás.Quando dei por mim o macaco me tinha uma amizade como ninguém ousara ter antes. Ele finalmente se apoderou de mim e nós nos fundimos em um só plasma etéreo. Tudo então desapareceu. Ah, esse macaco...
segunda-feira, 17 de março de 2008
Encontros Insólitos Diários
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