sábado, 8 de novembro de 2008

Moinho de Bergen


Absorto em pensamentos, o velho do moinho tenta compreender o seu contexto e tudo o que está além dos campos verdes da sua colina. Rapidamente ele percebe que o movimento radial do resultado de leis mecânicas dificilmente poderá sofrer alguma alteração.
Indo mais além, o guardião da colina sente a necessidade de algo palpável(não como a esperança nem tampouco como os sonhos)que seja resultado das leis acima referidas,uma manifestação que possa ser ao menos beijada ,um pedaço comestivel de carpe diem.
Ele sabe acima de tudo que o homem é como o cubo mágico. Seus pensamentos fluem em tão sólidas vias como correntes citoplasmáticas. Suas vontades igualmente se difundem em ambientes dispersos. Seria um trabalho muito árduo - riu o velho .
Os campos vegetais do entorno o carregam para outra questão,ou exclamação,ou seja lá o que for. De onde viemos e pra onde vamos?Ele já havia pensado nisso inúmeras vezes durante sua melancólica sobrevivência e todas elas acabavam de forma assuatadoramente cíclicas.
Promíscuos salvadores,divagações nulas e ilusões sempre dançaram ao seu lado nas noites frias da Noruega. Mas é fato que ele nunca presenciou uma população de gaivotas se implodindo,nem viu leões marinhos se amontoando até a morte. Isso explica sua inquetação. Sua indignação desmedida é outro assunto.
Ele se ressente por não entender completamente o significado de tudo aquilo,o que o seu moinho e sua colina tinham de verdadeiros,o porquê do pôr-do-sol ter ficado tão sem graça. O que parecia apenas um ataque de fatalismo na verdade escondia uma falta imensa de matéria, de razão e de vida. Repentinamente ele não consegue se apoiar em mais nada,não vê mais os belos campos verdes da sua colina,nem sente a brisa fresca no seu rosto.
Tudo o que presencia se parece inevitavelmente com os contos de marujos ou bincadeira de esconde-esconde.Triste fim...melancólico,doloroso e irreversível. Mas um começo admirável e digno de menção.

sábado, 12 de julho de 2008

Gênese Humana

Primeiro escolha um homem
nao qualquer um
um bom homem
um homem honesto
um homem simples
depois retire-o do seu mundo
com muito cuidado
pra ele não se desfazer
coloque a cabeça no armário
os pés na solidão
o corpo no espaço
e a mente fica a seu criterio
escolha um lugar pro homem
o lugar mais calmo
da pintura
escolha tambem a morada
dos sentimentos do homem
cuide pra que eles nao fujam
regue diariamente sua angústias
e colha seus desejos numa cesta
pergunte a ela a intensidade
dos sonhos do homem
se for como o fogo do inferno
pode modelar o homem
mas se escorre como plasma
é melhor jogar a massa fora
e esquecer de esculpir sua alma.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Para "amor"



Não posso nem me é digno pensar no sofrimento como uma mola propulsora de uma realidade insensata,macabra mesmo. Se ao menos minhas mão pudessem afagar sutilmente as curvas da Vozinha da Vida. Ou mesmo como esmola um simples olhar carinhoso. Ela me arranca as raízes. Tem escamas e um borrão cinza no tórax. De tempos em tempos me tira pra dançar. Isso quando não me mata antes. Leveda,essa menina.Sádica também. Uma pitada de ego(erectus)centrismo do caralho. Outra e maior de realeza.Indolência quase sem querer. Desculpas esdrúxulas a estapear minha cara. Então inevitavelmente nos damos as mão e nos amamos em falsas nuvens cerceadas pela complacência hostil da figura alegórica do lugar-comum. Dormimos sonhos de papel de seda desintegrando-se no aconchego do lago do vaso. Por aqui chamam isso de ‘muntação’.Mas é mostra de sessão única. Coisa importante para se preocupar. Coisa imperdoável se não zelada.Um verdadeiro massacre existencial.Eu a amo com tudo o que tenho. Eu a odeio igualmente à perder de vista. Extravagante esse sustentáculo. Dialética uníssona beirando a descrença. Ditadura mental em alicerces de serotonina.Pesadelo rejuvenescedor. Alamedas análogas a incertezas desfiguram o resto do quadro e mutilam a seqüência imoral dos pretensos fatos.

quarta-feira, 19 de março de 2008

terça-feira, 18 de março de 2008

Manifesto do Surrealismo (André Breton,1924)


"Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis."

segunda-feira, 17 de março de 2008

Encontros Insólitos Diários

Que estranho! - pensei.
Que diabos um macaco está fazendo numa sala de estar com um bisturi na mão!? Talvez ele fosse louco, ou desesperado. Se estender minhas possibilidades posso até me lambuzar numa situação cômica ou assustadoramente trágica. Mas esse macaco...
Ele se mexeu. Pulou até o beiral da janela e começou a contar estrelas. Virou-se para o espelho na parede esquerda. Fitou-me. Foi o olhar mais fustigante que eu poderia querer. Queria dizer-me algo. Passou um tempo balançando o dito cujo,passando-o de uma mão para a outra. Mas nunca desviou-me os olhos.O homen de terno cinza escuro riu da situação. O macaco não. Como num déja-vu o sociopata avançou e subitamente arrancou-lhe um dos olhos. Aquilo me deixou em catatonia profunda. Virou-se e olhou-me de novo aquele ser especial, enquanto o infeliz humano esvaía-se em sangue e vômitos.Queria mesmo dizer-me algo.Jogou o instrumento para cima querendo evidentemente que meus olhos o seguissem.Foi o que aconteceu. Quando a morte tocou o chão,reparei que algo acontecera.Não me atrevia a olhar,mas senti um alívio imediato de carga emocional.Parecia flutuar.Gostei daquilo,me sentia pleno e constante...até demais.Abri meus olhos á meia-luz e minha leveza não passava. Abri mais ainda e preencheu-me um vazio indescritível. Sentia que eu era nada. O macaco riu dessa vez. Parecia prever isso. Olhou-me novamente e sussurou mensagens em mímica simiesca que aparentemente eu entendia. Mas o que se sucedeu superou em muito minha real e ínfima interpretação do que estava acontecendo. Tudo ficou quieto de repente. Ele continuou a me olhar fixamente nos olhos,mas dessa vez parecia pedir desesperadamente por algo.Eu não entendia. Preferia sua mímica primitiva. Estendeu-me a mão. Eu então toquei-o de leve com a ponta dos dedos. Aquilo me gelou a espinha. Parecia que estava deixando definitivamente algo para trás.Quando dei por mim o macaco me tinha uma amizade como ninguém ousara ter antes. Ele finalmente se apoderou de mim e nós nos fundimos em um só plasma etéreo. Tudo então desapareceu. Ah, esse macaco...

Lanceta de Bronze

Esfrega a pele do desejo
Momento lírico monocromático
No céu o devaneio do louco
Aplaude e chama os sádicos
Comsumidos em frenesi por cânceres
Num insight meristêmico de nada.

Amorphus

Paralelos cruzados esféricos
Encantam a menina de rendas
Surgem como seda aos crédulos
Mancham com torpor o destino
Da vida vibrante do descaso
Escrevem com fios de prata
Descrenças do mundo mundano
Esperam por entre as líquidas frestas
O grito estéril do velho profano

Estigma

Silencio,responda-me amigo...
Leva de volta os rastros do tempo
Diga ao fêmur que fico
Diga ao limbo que não será agora
Mostra as unhas sujas de vida
E leva o espírito esquelético ao lúmen
Silencio,por favor meu amigo...
Não me solte ao contorcionismo do caos
Fique só mais um pouco,vigia sua súmula
Para esfregar tua face em meu ego disforme

Nuance

Beijo mimico na lua cheia
A paz decrepta anuncia um estalo fatigado
Se o mar esmurra,a vida se inflama
Como nos rios a correr como plasma
E nas distorções entre humanos e psiques
Fica explícito a natureza táctil do infinito
Quando da vaca se faz um tubo de cola
E do sonho se faz um bolo de vícios

Neandertown



-Olá,menina.
-Moir!?- disse ela, apontando para si mesma.
-Quer saber a dimensão do seu hipotálamo? Eu sei muito sobre suas réplicas em miniatura...
-Não! Pra que haveria de querer saber disso? Minhas replicas são assunto meu,não se meta- respondeu aos berros.
-Tá certo, perplexo meu. E sobre os abutres que matam cadáveres? Tua réplica entende o que pensam?
-Certamente- respondeu. Mas me diga por que sufocam-se em células que eu lhe digo o que pensam.
-Ora,essa resposta não é simples,minha pequena fascínora.
-Então(continuou a pequena),como espera que eu acredite em você? Sarcasmo!? Vazio sem apelo!? Explique-se ,por favor!
-Minha pequena pandora, espera mesmo que vá levá-la ao fúnebre obelisco mesmo depois de desejar uma catacombe? Tola! Sabe que não deve aproximar-se do dispositivo e nem mesmo tentar controlar os abutres. Quantas vezes dormiu abraçada com isso? A vida toda? Ou um lapso juvenil de um inseto?
-Nunca poderá saber ao certo...

Fagulha

Você não entende...
Entendo,sim!
Não,não entende nada...
Não percebe? Cansei de ser sincero.Cansei dessa merda.
Não diga isso!
Por que? Sua mente submúltiplo de resto não entende mesmo.
Já falei que entende sim,que porra!
Pára com isso.Discutir alucinações não leva à nada.
O problema não é meu.
Pára com isso já disse
Não tenho nada a ver com isso.Ego seu.Sua loucura.
Mas a culpa também é sua !
Pode até ser que sim.
A planta da varanda de cima fui eu quem fiz.
Assim também se deram com as maldições e tempestades.
Lamúrias?Não,disso não sei de nada...
No mais,me disperso por aí.
No mais,sou duro feito pedra.
Mas,me diga...por que quer uma conversa franca?
Nem eu mesmo sei...por que veio?
Vim por causa do moço.
Vai me levar o fluido?
Talvez.
Logo?
Talvez.
Mas por favor dê de comer aos ossos enquanto estiver fora.
Não sabe de nada,garoto.
Não sabe que os sinos badalam em falso coro?Que espasmos não se originam do nada?Quanta esperteza...
Posso ficar com um déja vu?
Acha que eu te daria um desse?Não! Eles não escolhem parceiros. Fique sozinho. É a sua acidez contra a fúria dos eufemismos relinchantes.

O Visionário - Murilo Mendes

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de Sonhar aos poetas.
A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


Rubem Fonseca

Beijinho no Rosto

A sua bexiga terá que ser removida inteiramente, disse Roberto. E nesses casos prepara-se um lugar para a urina ser armazenada, antes de ser excretada. Uma parte do seu intestino será convertida num pequeno saco, ligado aos ureteres. A urina desse receptáculo será direcionada para uma bolsa colocada em uma abertura na sua parede abdominal. Estou descrevendo esse procedimento em linguagem leiga para que você possa entender. Essa bolsa será oculta pelas suas roupas e terá que ser esvaziada periodicamente. Fui claro?Foi, respondi acendendo um cigarro.Gostaria de marcar a cirurgia para logo depois desses exames que estou pedindo. Já lhe falei da relação entre o câncer da bexiga e o fumo?Não me lembro.Três em cada cinco casos de câncer na bexiga são ligados ao fumo. Esse vínculo entre o fumo e o câncer da bexiga é especialmente forte entre os homens.Prometo que vou deixar de fumar.Este ano, no mundo, ocorrerão cerca de trezentos mil novos casos de câncer de bexiga.É mesmo?É o quarto tipo de câncer mais comum e a sétima causa de morte por câncer.Tive vontade de mandar o Roberto parar de me chatear, mas ele, além de meu médico, era meu amigo.O câncer de bexiga, ele continuou, pode ocorrer em qualquer idade, mas usualmente atinge pessoas com mais de cinqüenta anos. Você faz cinqüenta anos no mês que vem. É um mês mais velho do que eu.Estou atrasado para um compromisso, tenho que ir, Roberto.Não se esqueça de fazer os exames.Saí correndo. Eu não tinha encontro algum. Queria fumar outro cigarro em paz. E também precisava encontrar alguém que me arranjasse um revólver. Lembrei-me do meu irmão.Telefonei para ele.Você ainda tem aquela arma? Tenho. Por quê?Quer vender?Não.Você não tem medo de que um dos teus filhos ache o revólver e dê um tiro na cabeça do outro? Uma coisa assim aconteceu outro dia. Deu no jornal.Meu revólver está trancado numa gaveta.O desse infeliz, segundo dizia o jornal, também.Eu não li nada sobre isso.Você sempre diz que só lê a manchete do jornal. Isso não dá manchete, acontece todo dia.E como é que foi?O menino estava brincando de mocinho e bandido com o irmão e a desgraça aconteceu. Qualquer dia vou ler no jornal que um sobrinho meu matou o outro numa brincadeira.Deixa de ser agourento.Vou passar aí hoje à noite.Chegando na casa do meu irmão ele me disse, olha aqui esta gaveta, você acha que dois pirralhos podem arrombar essa fechadura?Podem. Como? Quer ver eu arrombar essa merda?Você é um adulto.Onde é que está a Helena?Está no quarto.Chama ela aqui.Contei para a mulher dele a tal notícia do jornal, que eu inventara.Vivo pedindo ao Carlos para se livrar dessa porcaria, mas ele não me ouve, disse Helena.Eu vim aqui para comprar o revólver, mas esse idiota não quer vender.O que você vai fazer com o revólver?, perguntou Carlos.Nada. Possuí-lo, apenas. Eu sempre quis ter um revólver.Helena e o meu irmão discutiram algum tempo. Ela venceu o debate ao dizer que um dos meninos podia pegar o chaveiro quando meu irmão estivesse dormindo, ou quando ele esquecesse o chaveiro num lugar onde os moleques pudessem achar, ou em outra ocasião qualquer. Afinal, Carlos abriu a gaveta e tirou o revólver.E você, para piorar as coisas, mantém esse troço carregado, eu disse, depois de examinar a arma.Maluco irresponsável, disse Helena, furiosa, você sempre me disse que o revólver não tinha balas. Olha, deixa o seu irmão levar essa porcaria com ele, agora. Do contrário eu saio de casa e levo as crianças.Peguei o revólver e fui para o meu apartamento. Telefonei para a minha namorada. Senti vontade de ir ao banheiro mas sabia que ia ver sinais de sangue na urina, o que sempre me dava calafrios. Isso podia atrapalhar o meu encontro. Urinei de olhos fechados e também de olhos fechados acionei a válvula de descarga várias vezes.Enquanto esperava minha namorada, fiquei pensando no futuro, fumando e tomando uísque. Eu não ia ficar a vida inteira enchendo com xixi uma bolsa colada no corpo, que depois tinha que ser esvaziada, sei lá de que maneira. Como eu poderia ir à praia? Como poderia fazer amor com uma mulher? Imaginei o horror que ela sentiria ao ver aquela coisa.Minha namorada chegou e fomos para a cama.Você está preocupado com alguma coisa, ela disse, depois de algum tempo.Não estou me sentindo bem.Não se preocupe, querido, podemos ficar apenas conversando, adoro conversar com você.Essa é uma das piores frases que um homem pode ouvir quando está nu com uma mulher nua na cama.Levantamos e nos vestimos sem olhar um para o outro. Fomos para a sala. Conversamos um pouco. Minha namorada olhou para o relógio, disse tenho que ir, querido, me deu uns beijinhos no rosto, foi embora e eu dei um tiro no peito.Mas esta história não termina aqui..Eu devia ter atirado na cabeça, mas foi no peito e não morri. Durante a convalescença, Roberto me visitou várias vezes para dizer que tínhamos pouco tempo, mas ainda podíamos fazer a cirurgia da bexiga, com êxito.Isso foi feito. Agora eu esvazio com facilidade a bolsa de urina. Ela fica bem escondida sob a roupa, ninguém percebe que está ali, sobre o meu abdome. O câncer parece que foi extirpado. Não tenho mais namorada e estou viciado em palavras cruzadas. Deixei de ir à praia. Fui uma vez, para jogar o revólver no mar.

domingo, 16 de março de 2008

Renné Magritte

René François Ghislain Magritte (Lessines, 21 de Novembro de 1898 - Bruxelas, 15 de Agosto de 1967) foi um dos principais artistas surrealistas belgas, ao lado de Paul Delvaux.

Le Blanc Seing,1965


The son of man,1926




L´empire des lumiéres,1954



Le Seducteur,1953

Juliana

Desde o dia em que te vi tudo mudou. Prematuramente o céu se abriu em brancas nuvens rodeadas de véus cristalinos.Tinhas uma lógica,uma álgebra decifrável,mas tão inexata....queria explodir em prantos meu fervor. Te carregar até a fronteira do não, perseguir teu corpo visceralmente entre lamúrias e sorrisos. Quando a areia se amontoa, varre esperanças e exala em ébrios perfumes a essência do karma voluntário.Se nada fosse possível, deter o monstro, acabar com a tempestade, uma luz pequena e vil se espreitaria tentando entrar....como um deus enviado,faminta e disforme,galgando por entre os bosques na espera eterna de voltar.

Paul Delvaux


Paul Delvaux foi um pintor nascido em Antheit, na Bélgica, em 1897 e falecido em Knokke no ano de 1994. Aos 21 anos de idade iniciou seus estudos na Academia de Belas Artes de Bruxelas, onde, mais tarde, seria professor durante os anos de 1950 a 1962.



Sleeping Venus,1923

Nimphs Bathing, 1938

Village of Mermaids,1942

Marc Chagall

Marc Chagall (Vitebsk, Bielorrússia, 7 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista surrealista russo-francês.

Lovers and Flowers

Three Candles

Concert

Birthday


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